22 de abril de 2026

HERÓIS NUNCA MORREM!

ANO VII - Publicação 2613

HOMENAGEM DE UM NETO A SUA AVÓ 


"Foi grande a dificuldade que enfrentei para construir esse texto, mas o escrevi com a intenção de exaltar a senhora, vó!"


"Hoje, me despeço de maneira dramática, porém muito orgulhosa, da Dona Ilda Maria do Prado. A despedida que antecede o descanso derradeiro de uma pessoa tão imponente como a senhora que, ainda em vida, deve ter dito a muitos aqui, pelo menos mais de uma vez, que “só pararia para descansar quando morresse”. Então, enfim seu tão merecido descanso, vó. 


Apesar de me referenciar à senhora como vó, a senhora, desde sempre, representou em minha vida muito mais do que tal papel. Para uns, mãe, para muitos, tia, e para poucos, avó. E pelo menos para mim, como um de seus poucos netos, a senhora foi a concretização física da aglutinação das palavras “mãe” e “vó”. Digo isso, porque durante toda minha infância, devido à impossibilidade da presença integral da mamãe, foi a senhora, para a minha sorte, que se fez presente e assumiu para comigo diversas responsabilidades maternais. É, então, por conta disso que não a tenho somente como vó, mas sim como vãe.

Forjada sua personalidade em meio à dureza e à brutalidade de seu lar, a realidade enfrentada pela senhora e sua família nas terras vermelhas do Souza, me permite a possibilidade de comparação entre sua história verídica com o famoso romance de Graciliano Ramos, Vidas Secas. Uma existência que desafiou os limites da dificuldade, pautada majoritariamente pelo sofrimento, pelo sacrifício, pela escassez, mas principalmente pela resiliência. Chamo atenção para a resiliência, porque em vida a senhora exalou uma força de resistência, que para a maioria dos que conheceram a senhora, é um exemplo a ser seguido, especialmente por mim

Eu poderia delongar sobre os mais diversos fatos sofridos, vividos pela senhora, mas há entre todos esses, três que eu considero os mais desafiadores. A senhora lidou com a perda da mãe ainda muito cedo, aos 14, e resistiu, lidou com o triste fim de um de seus irmãos e resistiu, e por fim, perdeu um de seus queridos filhos de maneira trágica, e mais uma vez, resistiu. Mesmo sem a senhora ter tido ciência disso, o ato de lutar e ser forte é a essência do significado de seu nome, Ilda. E para além desse nome, a senhora também era Maria, e como já dizia Milton Nascimento, “ Maria é som, a cor e o suor, é a dose mais forte e lenta de uma gente que ri quando deve chorar, e não vive apenas aguenta”. Com isso, tenho a certeza de que a senhora foi a encarnação de um guerreiro Viking, e para mim, sinônimo de força e raça.

Em uma de muitas das minhas conversas com o Ti Tadeu, ele me disse uma coisa muito marcante: “João, heróis nunca morrem”. Naquele momento confesso à senhora que não tive a devida maturidade para compreender a profundidade do significado daquilo que ele me disse, mas hoje, com sua ida, acredito que agora consigo captar a mensagem de maneira completa. E, por isso, a senhora deixa de viver junto a mim, e passa a viver em meu coração, inaugurando o Hall dos meus verdadeiros Heróis. Será dessa maneira que vou prolongar seu tão valioso legado.

 A partir desse momento quero pensar na senhora em um vilarejo, um vilarejo parecido com o de Marisa Monte, onde a senhora encontrará todos aqueles que a senhora tem o desejo de rever e matar sua saudade, como seus pais, seus irmãos, e o tio Agnaldo. E agora, encerro minhas palavras para me juntar à família que a senhora me concedeu. Eu te amo, Vovó, que a senhora possa desfrutar de tudo que os céus lhe possam oferecer. Mesmo a senhora não gostando muito, sinta-se abraçada por mim, não importa onde a senhora esteja."

 

Com saudades eternas,

 

Do seu neto “Joãozinho”.


Luizinho Clemente 1912

Cruzeiro Sempre!

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