ANO VII - Publicação 2613
HOMENAGEM DE UM NETO A SUA AVÓ
"Foi grande a dificuldade que enfrentei para construir esse texto, mas o escrevi com a intenção de exaltar a senhora, vó!"
"Hoje,
me despeço de maneira dramática, porém muito orgulhosa, da Dona Ilda Maria do
Prado. A despedida que antecede o descanso derradeiro de uma pessoa tão imponente
como a senhora que, ainda em vida, deve ter dito a muitos aqui, pelo menos mais
de uma vez, que “só pararia para descansar quando morresse”. Então, enfim seu
tão merecido descanso, vó.
Apesar de me referenciar à senhora
como vó, a senhora, desde sempre, representou em minha vida muito mais do que
tal papel. Para uns, mãe, para muitos, tia, e para poucos, avó. E pelo menos
para mim, como um de seus poucos netos, a senhora foi a concretização física da
aglutinação das palavras “mãe” e “vó”. Digo isso, porque durante toda minha
infância, devido à impossibilidade da presença integral da mamãe, foi a senhora,
para a minha sorte, que se fez presente e assumiu para comigo diversas
responsabilidades maternais. É, então, por conta disso que não a tenho somente
como vó, mas sim como vãe.
Forjada sua personalidade em meio à
dureza e à brutalidade de seu lar, a realidade enfrentada pela senhora e sua
família nas terras vermelhas do Souza, me permite a possibilidade de comparação
entre sua história verídica com o famoso romance de Graciliano Ramos, Vidas Secas.
Uma existência que desafiou os limites da dificuldade, pautada majoritariamente
pelo sofrimento, pelo sacrifício, pela escassez, mas principalmente pela
resiliência. Chamo atenção para a resiliência, porque em vida a senhora exalou
uma força de resistência, que para a maioria dos que conheceram a senhora, é um
exemplo a ser seguido, especialmente por mim
Eu poderia delongar sobre os mais
diversos fatos sofridos, vividos pela senhora, mas há entre todos esses, três que
eu considero os mais desafiadores. A senhora lidou com a perda da mãe ainda
muito cedo, aos 14, e resistiu, lidou com o triste fim de um de seus irmãos e
resistiu, e por fim, perdeu um de seus queridos filhos de maneira trágica, e
mais uma vez, resistiu. Mesmo sem a senhora ter tido ciência disso, o ato de
lutar e ser forte é a essência do significado de seu nome, Ilda. E para além
desse nome, a senhora também era Maria, e como já dizia Milton Nascimento, “
Maria é som, a cor e o suor, é a dose mais forte e lenta de uma gente que ri
quando deve chorar, e não vive apenas aguenta”. Com isso, tenho a certeza de
que a senhora foi a encarnação de um guerreiro Viking, e para mim, sinônimo de
força e raça.
Em uma de muitas das minhas conversas
com o Ti Tadeu, ele me disse uma coisa muito marcante: “João, heróis nunca
morrem”. Naquele momento confesso à senhora que não tive a devida maturidade
para compreender a profundidade do significado daquilo que ele me disse, mas
hoje, com sua ida, acredito que agora consigo captar a mensagem de maneira
completa. E, por isso, a senhora deixa de viver junto a mim, e passa a viver em
meu coração, inaugurando o Hall dos meus verdadeiros Heróis. Será dessa maneira
que vou prolongar seu tão valioso legado.
A partir desse momento quero pensar na senhora
em um vilarejo, um vilarejo parecido com o de Marisa Monte, onde a senhora
encontrará todos aqueles que a senhora tem o desejo de rever e matar sua
saudade, como seus pais, seus irmãos, e o tio Agnaldo. E agora, encerro minhas
palavras para me juntar à família que a senhora me concedeu. Eu te amo, Vovó,
que a senhora possa desfrutar de tudo que os céus lhe possam oferecer. Mesmo a
senhora não gostando muito, sinta-se abraçada por mim, não importa onde a
senhora esteja."
Com saudades eternas,
Do seu neto “Joãozinho”.
Luizinho Clemente 1912
Cruzeiro Sempre!